ASHTANGA YOGA PARA CORPO E MENTE
A vida tem um ritmo e um fluxo natural que se mantém desde as espécies mais elementares até as mais complexas, como os seres humanos. Este fluxo, quando em equilíbrio, preserva as condições saudáveis do corpo e da mente. É fato que a saúde mental determina a saúde do corpo. Há uma unidade entre o corpo, a mente e a consciência - quando todos estes estão em equilíbrio, a vida flui de maneira mais harmoniosa, mesmo diante de situações desconfortáveis. Por exemplo, se estivermos equilibrados e em sintonia com o fluxo e ritmo natural da vida, não seremos tão facilmente afetados pelo estresse do trânsito, do trabalho e das demais situações que abalam e desestabilizam o equilíbrio emocional. Esta sintonia com o fluxo da vida é a proposta do Ashtanga-Yoga.
Desvendando o Ashtanga-Yoga
Este conceito foi definido há milhares de anos, na antiga civilização védica, por Rshi Kapiladeva e registrado no clássico "Bhagavad Purana". Este sábio apresentou oito etapas modelares do sistema de Yoga (yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi) que foi, no século V d.C., reapresentado pelo sábio Patañjali na obra "Yoga-sutra", na qual se estabeleceu as bases para o Yoga moderno, com metodologia e teoria da prática do Yoga.
No final da década de 1930, um importante mestre de Yoga (Krishnamacarya) e seu discípulo (Pattabhi Jois) encontraram na biblioteca da Universidade de Calcutá um antigo manuscrito sobre técnicas de Hatha-Yoga aplicadas em seis séries específicas de posturas. Este tratado também trazia referências sobre sequências posturais de Saudações ao Sol, com detalhes de ritmo respiratório - o que é conhecido como vinyasa.
Partindo desta pesquisa, o discípulo Pattabhi Jois desenvolveu seu sistema de Yoga conhecido como Ashtanga-vinyasa. Este sistema de Yoga pode ser concebido como Hatha-Yoga, mas seu foco é direcionado à sequência rítmica de posturas e respirações. Tal sistema se popularizou rapidamente pelos Estados Unidos durante a década de 1990 e ganhou adeptos ao redor do mundo, principalmente Europa e Brasil. O sucesso de deve ao estilo forte e dinâmico da prática das posturas unidas ao ritmo acentuado da respiração - que muito se assemelha ao ritmo de vida moderno das grandes cidades. A técnica tem suas bases na sequência de Saudação ao Sol, uma das mais antigas do Yoga. Assim como esta série de Saudação ao Sol traz muitos benefícios ao praticante, o mesmo ocorre com a série desenvolvida por Pattabhi Jois. Dentre eles: benefícios nos sistemas cardiovascular, circulatório, endócrino e digestivo. O estado mental se estabiliza e a estrutura muscular se tonifica quase que por completo. Os efeitos mentais são sensíveis logo nas primeiras práticas, pois a respiração intensa, aliada à dinâmica das posturas, traz de imediato o equilíbrio interno e serenidade mental.
Aspectos terapêuticos
Como o sistema de vinyasa trabalha a sincronização profunda do ritmo respiratório e dos movimentos, ele desperta o fogo interno da energia vital, ativando a oxigenação sanguínea, revitalizando as glândulas e órgãos internos, purificando o sistema nervoso, liberando toxinas e retardando a oxidação das células. Como resultado deste reequilíbrio energético dos sistemas orgânicos, o corpo se torna forte e revitalizado, a mente e os pensamentos ficam mais claros e controlados. Consequentemente, o praticante alcança uma experiência interior com seu próprio ser (self). Desta experiência, ou insight, muitos padrões antigos podem ser mudados naturalmente, pois a visão e a interação com o mundo passa a ocorrer com a mente menos julgadora e mais pacífica. E este é o mais importante benefício oferecido pela prática do Yoga.
Desse modo, o Yoga não restringe seus efeitos apenas ao aspecto físico, pois atua na mente, a raiz de todos os males que afetam o corpo e as energias sutis do corpo. O estilo de vida moderno impera no desequilíbrio da vida natural do ser. O estresse e a ansiedade prejudicam a concentração, o desempenho profissional e emocional. Isto acontece porque o ritmo de vida que nas grandes metrópoles é desarmonioso com o ritmo de vida interior e natural que temos em essência.
Aos poucos, vamos perdendo o elo com nosso próprio ser e passamos a viver à margem de quem realmente somos. Como resultado, vemos muitos casos de desequilíbrios que afetam o campo mental, como depressão, fobias, manias, entre outros. Assim, o Ashtanga-Yoga tem como objetivo harmonizar corpo, respiração, mente e espírito - através de seus movimentos e fluxos, possibilitando o restabelecimento consciente do ritmo interno do ser. E isto sem ter que deixar de lado os compromissos e responsabilidades da vida prática.
A importância da respiração
Fica fácil notar como a respiração é fundamental na restauração da saúde e do bem-estar físico, mental e espiritual. A respiração é a fonte de vida no corpo e oferece suporte para a relação entre corpo e mente, bem como ânimo à vida. Em muitas línguas os termos respiração e espírito são sinónimos, como no grego, anima (alma); no latim spiritus; no hebráico ruach e mesmo no português inspiração, de inspiritus. Até mesmo o conceito de saúde, na visão do ayurveda, tem relação com é ânimo, bem-estar e disposição. Quando falta este estado de espírito, pode-se considerar algum estágio de adoecimento do corpo ou da mente.
No sânscrito, a palavra prana significa a energia vital que está presente em todos os corpos vivos. Ela é responsável pela manutenção e preservação das condições saudáveis dos mais variados corpos vivos. O trabalho de ativar este fluxo intenso de prana é fundamental na prática de Yoga e uma das prioridades observadas no sistema de Ashtanga-Yoga, o que acaba não sendo tão importante em outros sistemas. E isto caracteriza a grade procura por este estilo de Yoga, atraindo tanto pessoas com um perfil mais energético e ativo, quanto praticantes mais calmos e contemplativos. Em ambas condições, o resultado será ativar os ares vitais do corpo energético para trazer a um equilíbrio uniforme. Em outras palavras, a prática acalma a ansiedade mental e favorece o reequilíbrio natural da saúde.
Porém, mais indicado que a rápida leitura deste artigo é iniciar sua prática com um profissional e ter sua própria experiência com seu ritmo vital. Boa prática!
Por Jay Advaita |




"Aquele que procura o Céu na Terra certamente adormeceu na aula de geografia..."
(Stanislaw Jerzy Lec- poeta polonês)
Então é melhor saber lidar com as emoções... Elas sempre virão!
Compreender as necessidades do mental e do físico pode ser um bom começo...
De um modo geral, emoção é um impulso neurológico que leva o organismo a uma ação. É um estado psico- fisiológico.
Já o sentimento, é a emoção filtrada por áreas específicas do cérebro (lobo frontal).É um estado de mudanças fisiológicas.
A palavra EMOÇÃO, refere-se à natureza imediata da agitação da mente, experimentada pelos seres humanos e em algumas culturas, por todos os seres vivos.
Tanto emoção quanto sentimento, dependem da percepção do sistema sensorial.
Essa percepção vale tanto para as emoções e sentimentos em nós mesmos, quanto para as emoções nos outros. Podemos perceber sentimentos de tristeza ou alegria nas pessoas, através de sua expressão facial e corporal, por exemplo.
Com a correria, tentamos guardar as emoções para o momento propício e vamos armazenando-as. Mais ou menos como programamos atividades da nossa rotina.
Seguimos nosso caminho, e as emoções primárias como raiva, medo,tristeza e alegria são reprimidas ou outras vezes exacerbadas descontroladamente....
Em algumas circunstâncias curamos alguns tipos de sentimentos com o perdão.
Em outras, enquanto o perdão não chega ou amadurece, desenvolvemos travas ósseas, musculares, bloqueios celulares, liberação descompensada de hormônios, desajustes circulatórios entre outros males.
Poucas vezes, se percebe que esses sentimentos também podem ser ferramentas preciosas de transformação.
Estamos todos sujeitos a essas avalanches de sentimentos.
Muitas vezes eles são exteriorizados num único dia, parecendo mudanças climáticas fora de hora.
O que dizer ainda de nosso medo constante que pode nos colocar em incessante estado de alerta...
Medo da violência, medo de não ser aceito, medo de não ser compreendido... Nesse intervalo de tempo, chega-se à ansiedade. Se ela ganhar muito espaço, desenvolve-se a fobia.
Todas essas reações e sensações são saudáveis, algumas servem até como proteção, defesa...
Mas há uma linha frágil entre os benefícios e prejuízos.
Percebemos que um grande número de pessoas atravessou essa linha, e está colhendo o fruto prejudicial das próprias emoções.
A falta de conhecimento das percepções internas pode nos levar às ações equivocadas. As vezes, essas ações não têm uma conseqüência imediata,mas algum tempo depois, começamos a sentir seus efeitos. E podemos nos manter ainda mais presos à lei do karma (causa e efeito).
O yoga não é uma receita para a cura dos males, mas é uma preciosa ferramenta de auto desenvolvimento, auto conhecimento.
A prática do Yoga leva à expansão da consciência e podemos avaliar melhor nosso próprio comportamento.
Diariamente nossa mente registra muitos estímulos externos. Podemos ter resultados agradáveis ou não, sem que tenhamos total controle em todas as situações...
Por mais que o olho esteja bom, com uma lente embaçada, não haverá muita nitidez...O Yoga é um agente de limpeza para a lente mental.
Sendo a mente o comandante e o corpo o soldado, as coisas vão ficando mais práticas, as impurezas são eliminadas pouco a pouco.
É aquela estória: Se quiser ver peixes pequenos, mantenha-se em águas rasas. Para admirar peixes maiores, só em águas mais profundas.
Buscando o equilíbrio interior
Raja padasana
Com os pés unidos e firmes sobre o chão.
Observe o eixo corporal.A centralização da coluna, traçando uma corda imaginária que segura o topo da cabeça e alinha-se por toda a extensão da região cervical.
Verifique se o seu quadril está encaixado. Evite a lordose da região lombar.
Uma as palmas das mãos a frente do tronco( altura do peito).
Esta postura proporciona maior consciência para o início da sua prática.
É inclusive a primeira postura da série de saudação ao sol(surya namaskar).
Prathanásana
Variação sobre as pontas dos pés
Coloque um pé a frente do outro. Verifique se eles estão alinhados. Mantenha o alinhamento da coluna. Busque um ponto fixo a frente. O equilíbrio depende do foco, da concentração.
Permaneça alguns instantes nessa posição e só então erga os calcanhares, ficando sobre as pontas dos pés.
Permaneça na postura de 3 a 5 respirações completas.
Coragem
Vrikshásana
"buscando a coragem,tirando um dos pés do chão".
Coloque a perna direita sobre a coxa esquerda( altura da virilha). Procure manter o pé que está em contato sobre o solo, firme e a perna estendida.
Concentre-se num ponto fixo, para facilitar o equilíbrio.
Verifique se houve rotação do quadril. Mantenha toda a região pélvica voltada para frente.
Mantenha a postura por cinco respirações completas e faça o mesmo com a perna esquerda.
Natarájásana
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Essa é a postura do rei dos dançarinos.
Nata- dançarino; raja- Rei
É uma postura de desafio que "abre o peito", estimula a coragem mas requer força. Força e coragem andam juntas.
Força não provém de capacidade física, mas de uma vontade indomável (Gandhi).
Leve a perna direita flexionada em direção à região posterior do quadril.
Mantenha a perna base firme e o olhar num ponto fixo à frente.
Procure manter a região pélvica voltada para a frente. Evite a rotação do quadril.
Alongue o tronco e verifique o alinhamento dos ombros.
Essa postura possui inúmeras variações, de acordo com a sua flexibilidade. |
FLEXIBILIDADE PARA A AÇÃO
A FORÇA PODE ESTAR EM SER MAIS FLEXÍVEL DIANTE DAS ADVERSIDADES.
Utkásana
De pé, flexione os joelhos ,mantenha a planta dos pés em contato com o solo e desça o quadril, mantendo o alinhamento da cervical e queixo paralelo ao solo.
Vá até onde sua flexibilidade inicialmente permitir.
As mãos seguram os cotovelos e os joelhos permanecem unidos.
Váyutkásana
De cócoras sobre as pontas dos pés, os glúteos repousam sobre os calcanhares.
Mantenha o alinhamento da coluna, joelhos unidos, braços paralelos e estendidos e as mãos repousam sobre os joelhos. Concentre-se num ponto fixo a frente, para facilitar o equilíbrio.
O recolhimento necessário
Kúrmásana
Sente-se sobre os calcanhares e descanse o trono a frente.
Uma mão sobre a outra e a testa sobre as duas.
Observe a sua respiração. Se estiver ofegante, faça respirações mais lentas e profundas. Faça inspiração e expiração nasal e silenciosa.
Mantenha os olhos fechados, solte-se. Permita-se recolher e observar-se a si mesmo.
Shavásana
Shavásana é postura dorsal,conhecida também como postura do cadáver e postura de intenso relaxamento.
Pode não ser tão fácil quanto parece, porque estamos com todo o dorso em contato com o solo, em descanso.
E mal acostumados que estamos a usar nossos braços, ombros e costas, para "carregar o mundo", inicialmente pode ser inquietante.
Mas feche os olhos, e sinta o contato do corpo com o solo , a respiração que aos poucos vai retomando o estado basal, a mente mais lúcida, porém mais serena, sem atropelos.
Voltar "para casa" quando ela está mais arrumada e organizada , pode ser mais prazeroso.
Após a prática de algumas posturas de Yoga, seu corpo está "mais feliz".
Segundo Ezra Pound ( poeta norte americano), felicidade é a circulação apropriada de lubrificantes endócrinos.
Então , aprecie!
Até a próxima.
Christiane Buarque
Diretora do Centro de Cuidados da Pele – SP
Consultora em saúde, beleza e rejuvenescimento.
Prof.a. de Estética clínica e cosmetologia
Pesquisadora da Filosofia milenar do Yoga
Contatos: cuidadosdapele@ig.com.br
christianebuarque@hotmail.com
Veja abaixo em pdf ou na web parte da obra de Swami Maitreyananda,
presidente da
Sociedad Internacional de Yoga Integral AUROBINDO SIVANANDA ASHRAM .
Esses livros não têm fins lucrativos e abordam a grandiosidade da
filosofia de Sri Aurobindo, de quem o Swami é discípulo.
Confira Sua Biografia: Svami Maitreyananda
Partes do seu livro:
1. Livro de Yoga (Parte 1)
2. Livro de Yoga (Parte 2)
3. Livro de Yoga (Parte 3)
Outros títulos:
Qué es el Yoga?
Libro Namaskar Yoga
Psicología Holística
Aurobindo
Las Hojas Verdes del Té (zen)
Yoga Sutras-Patanjali
Gheranda Samhita
Consulte também:
http://www.yogaintegral.biz/libros.html
http://www.aurobindo-sivananda.org
Palavra de índia "Calma e paciência que o nenê nasce fácil'
Cláudia Rodrigues
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Keretxu Miri, índia guarani de 77 anos de idade, que habita uma aldeia no Espírito Santo, fala de sua experiência como parteira
No universo civilizado, principalmente no ocidente, o parto virou um mito, tanto para as gestantes quanto para a classe médica. As mulheres estão desaprendendo a parir, a amamentar e cuidar dos filhos e os médicos estão cada vez mais preocupados em ganhar tempo e menos habilidosos para auxiliar um trabalho que é muito mais da parturiente do que deles. Atrás de toda a parafernália técnica da ciência e da medicina, está algo que podemos chamar de burrice emocional. Sabemos pilotar um computador, dirigir carros; podemos comprar berços que balançam sozinhos, chupetas coloridas que distraem os bebês, mas por que afinal temos tanta dificuldade em colocar filhos no mundo? Será que não podemos mesmo unir o saber tecnológico à sabedoria primitiva?
O depoimento de uma índia, que faz partos desde que se conhece por gente, resgata o labirinto em que nos perdemos: o do excesso de pressa e preocupação. |
"O sangue não pode subir e a cabeça ficar quente. A mulher precisa ficar calma e esperar a hora que ela vem"
Keretxu Miri não esquece a primeira vez que tomou conhecimento de como as crianças vêm ao mundo. Foi por volta de 1930, em algum lugar entre o Rio Grande do Sul e o Espírito Santo. Os índios guaranis fizeram, a pé, o trajeto entre os dois estados, em busca da terra prometida. Levaram muitos anos para chegar a Santa Cruz, no Espírito Santo, o local que hoje habitam. Durante o percurso não foram poucos os partos. "Lembro bem quando meu pai avisou que teríamos que parar porque minha mãe ia ganhar nenê", conta Keretxu.
Era noite alta, mas quem já estava dormindo acordou para ajudar. O pai de Keretxu fez um 'rancho de palha de pindó'
- palmeira doce - em volta de uma árvore para proteger mãe e filho do frio. "Todos os índios foram cuidar da floresta para não deixar nada de ruim acontecer com a minha mãe e o nenê, que nasceu antes do sol raiar". A tribo ficou acampada três dias e depois seguiu em frente com a mãe de Keretxu carregando, à moda indígena, a pequena Euá.
Naqueles anos 30, a tribo andava por caminhos, estradas, mas também no meio da mata, perto das cachoeiras, procurando a terra prometida. Sempre havia algum português, italiano, alemão ou japonês que já era dono das terras. No meio do caminho chegaram a achar que a terra prometida era em Santos, São Paulo, onde viveram seis anos. "Era bonito lá em Santos, mas os brancos queriam briga de novo, como no Rio Grande, e então seguimos caminho", revela Keretxu Miri, que não entende, depois de 77 anos de vida, porque os brancos brigam tanto para tirar o ouro da terra. Ela fala que Inhanderu - Deus
- é justo com todos. "Inhanderu ajudou o homem branco e ajudou o índio, e fez a Terra para que todos os viventes pudessem viver aqui, mas Inhanderu não gosta de briga; briga faz mal, faz adoecer, então índio vai embora, mas vai em paz, mesmo nas mãos de Juruá - os brancos".
Um galo cantou, uma criança chorou e Keretxu Miri ficou silenciosa por longos minutos, antes de voltarmos ao nosso assunto; os partos. O galo pulou de cima da mesa, a criança ganhou o colo da mãe e um raio de sol atingiu os olhos de Keretxu Miri. Ela me olhou e disse: "A moça quer saber de parto, mas parto não tem segredo, não posso mentir, mas também o que é sagrado é sagrado", disse com simplicidade.
Ela conta que sagrado é o getapaãurá, a tesoura de madeira que corta o cordão umbilical e também as ervas (chás calmantes e levemente anestésicos) que acalmam a mulher para o parto. Nada disso pode ser filmado ou fotografado, mas Keretxu conta alguns dos 'segredos'. Detalhe: ela sempre faz questão de, entre uma e outra informação, pontuar que só se aprende vendo, observando e pensando antes de fazer. "O pensamento é muito importante e olhar com os olhos. Não dá para contar, é simples, é bom, não é problema receber o nenê", revela com sinceridade, os olhos brilhando, a expressão sorridente e calma. Receber o nenê, como diz a velha parteira, é uma das maiores dificuldades no mundo civilizado, tanto em função do tempo, quanto por deficiência de escola, já que nossos médicos não estudam psicologia e entendem pouco de uma das coisas que parteiras como Keretxu mais entendem: o universo emocional, que é inexoravelmente primitivo. Índias ou brancas, amarelas ou negras; na hora do parto a mulher vira uma leoa, um bicho que dá conta de "se livrar da dor" expelindo o bebê. Caso contrário, é cirurgia na certa.
SEGREDOS - Apesar de afirmar convicta que o parto não tem segredo, Keretxu explica que o 'nervoso' da mãe e até do pai pode atrasar o momento final do parto, a hora da expulsão. "Quando a mãe fica nervosa, o sangue sobe para a cabeça e o nenê não vem". Mal sabe ela que esta afirmação contém mais ciência do que nossa vã filosofia desconfia. O Dr. Elsworth Baker, americano que trabalha com gestantes ocidentais há mais de vinte anos, revela no livro O Labirinto Humano, que "quando a parturiente enrijece o queixo, recolhe os ombros, segura os punhos e a respiração, isso a faz apertar o soalho pélvico, o fluxo sangüíneo fica preso na metade superior do corpo e isso dificulta a descida do bebê". Segundo o médico, a tensão e a ansiedade excessiva na mulher, que não se sente capaz de parir, podem elevar a níveis alarmantes os batimentos cardíacos do feto, o que acabará exigindo uma intervenção cirúrgica, a menos que mãe seja acalmada em suas preocupações e estimulada a se entregar para a situação que se apresenta, relaxando e recebendo as informações enviadas pelo seu próprio corpo.
Keretxu Miri, que não sabe contar com precisão quantos partos fez na vida, afirma pacientemente que existem poucas providências a ser tomadas quando inicia o trabalho de parto. "Quando a mulher percebe que está chegando a hora, só precisa falar com Nhanderu e continuar normal, trabalhar um pouco e esperar com paciência que o nenê vem". Keretxu fala também que se o pai ajuda em casa nesse dia, preparando a comida, limpando e arrumando, isso ajuda a mulher a ficar calma, mas se o pai está nervoso é mau sinal. "Quando o pai e a mãe estão em briga o espírito da criança quer fugir e ela pode enfraquecer e morrer dentro da barriga ou depois de nascida", revela com uma sabedoria que pode assustar os brancos mais desavisados.
A velha índia, anciã da tribo Tekoa Porã, fala com simplicidade, sem qualquer traço de orgulho, que nunca teve problemas com os partos que fez. "Sei de ouvir falar. Minha mãe contava que o principal do parto era acalmar a mãe para o nenê poder sair. Ela já tinha visto mãe morrer e criança também por causa do nervoso" conta, sem tentar esconder a resignação diante da vida e depois acrescenta: "Meus olhos nunca viram nenhuma mãe e nenhuma criança morrer de parto". Eu pergunto se é sorte, ela responde que não, que é Nhanderu que a ensina a acalmar as mulheres que precisam.
Depois explica que algumas índias têm medo e por isso vão ganhar seus bebês nos hospitais. "Acho que cada um faz a sua escolha, se a pessoa tem um medo que eu não consigo acalmar, não vou usar a força, deixo na vontade dela", conta, sublinhando que nenhuma das mães e das crianças que atendeu precisou ir para o hospital. "Existem mulheres que querem fazer coisa errada na hora do parto e isso pode atrapalhar para o nenê sair", afirma, explicando que as coisas erradas para o dia do parto são comer, falar demais, não sentir e não pensar. "Quando a mulher fica assim, ela não fala com Nhanderu, fica sem paz no coração e a cabeça esquenta" pontua. O Dr. Hélio Bergo, obstetra e homeopata, especialista em partos naturais, aconselha suas pacientes a ficarem com elas mesmas. "Durante o trabalho de parto é importante que a mulher preste atenção aos ritmos do corpo ao invés de fugir assustada para uma solução externa", afirma, endossando a sabedoria primitiva da parteira.
O DIA 'D' - No dia de um parto, Keretxu Miri fica com Nhanderu. "Eu rezo, peço para Nhanderu proteger aquela mãe e aquela criança e Nhanderu me ajuda", relata tranqüila. Pergunto se ela conhece manobras para partos complicados e ela diz que não há nada complicado, que é só observar. "Se a mulher está muito nervosa a gente faz um chá. O bom é o caaminí ou então o capíía - chás com propriedades calmantes - e é importante que ela não coma nada de açúcar e nada de sal. O chá do mato amarguinho e mais nada, recomenda. Para acalmar é preciso também conversar, aconselhar e é isso também que Keretxu Miri faz. "Eu vou lá e falo com calma, que é assim mesmo, que não dá para fugir e então a pessoa se acalma e o nenê vem", conta, sem o menor estrelismo.
Ela explica que, para facilitar o trabalho de parto, é bom ficar sentada ou agachada segurando alguma coisa bem firme no chão e que não adianta ficar fugindo, não querendo passar por aquilo. "Mas tem mulheres que preferem deitar na cama para ganhar os bebês. Não tem problema, a pessoa é que escolhe como se sente melhor" pondera, desmistificando a idéia de que toda a índia dá à luz agachada.
Depois que o bebê consegue girar e sair, é hora de amarrar o cordão com uma linha feita de algodão, fabricada na aldeia e depois é a vez de cortá-lo, com o getapaãurá, uma tesoura de madeira, também feita pela tribo. "Tudo tem que estar bem limpinho", ressalta.
Os primeiros meses, principalmente os três primeiros depois que a criança nasce, segundo Keretxu Miri, devem ser de muito cuidado e a mulher não deve comer carne de galinha, de boi e nem de peixe. "Só mais a canjiquinha cozida, bem leve e com bastante caldo até o umbiguinho cair, depois pode voltar a comer, mas sem exagero nos primeiros meses", aconselha para evitar cólicas ao bebê, mais uma vez evidenciando que o segredo das índias para conviver bem com a gravidez, com o parto e a criação dos filhos é calma, muita calma.
Aí está. Palavra de índia que já pariu muitos filhos e já ajudou a nascer outros tantos. Em tempos de pressa, globalização, providências e precauções, urge a necessidade da palavra de uma especialista, de uma doutora do pensamento que sente, do sentimento que pensa.
Unindo saberes
Não somos índias, não passamos boa parte do dia acocoradas na beira do rio lavando roupas, não plantamos mais e nossa vida é mesmo apressada e cheia de estresse. Estamos então condenadas a colocar nossos filhos no mundo somente através de intervenções cirúrgicas? É claro que não. As japonesas modernas, as chinesas e as européias do norte também trabalham o dia inteiro, vivem sob estresse e mesmo assim conseguem parir a maioria dos filhotes sem maiores neuras. O que elas têm que nós brasileiras, campeãs mundiais de cesarianas, não temos?
Várias coisas. Em primeiro lugar, apoio da sociedade médica. No Brasil a exceção à regra é o parto normal e não a cirurgia, mas é sempre bom lembrar que o velho ditado que afirma que quando um não quer dois não fazem, é muito válido.
A mulher que deseja parto normal, na atual conjuntura social e cultural do país, necessita procurar um profissional que tenha feito mais partos naturais do que cirúrgicos. Não é exatamente como encontrar agulha no palheiro, mas é quase e neste caso não convém usar panos quentes. A maioria das clínicas privada do país tem um índice muito alto de cirurgias e portanto é preciso checar esse detalhe. Tomadas essas duas providências - escolha do médico e de uma clínica ou hospital humanista- é hora de dar um mergulho profundo no corpo e aí temos chances iguais ou até maiores do que as índias e outros povos primitivos.
Não podemos plantar grama e muito menos lavar roupa na beira do rio todos os dias, mas contamos com profissionais especializados que podem ajudar a gestante na preparação para o parto. Técnicas e vivências corporais como tai chi chuan, ioga, natação, bioenergética, biodinâmica e muitas outras estão à disposição das futuras mamães que, apesar de civilizadas, desejam aprender como chegar ao ponto final de um corpo de gestante: o desencadeamento do parto.
Só para garantir, vale lembrar dos conselhos da velha índia: sentir, pensar, não comer, falar pouco e esperar com calma, muita calma para a cabeça não esquentar e o "nervoso" não atrapalhar.
A autora:
Cláudia Rodrigues é jornalista e terapeuta somática e vive em Florianópolis, SC
E-mail- Claudiar@gol.com.br
E-mail- claudiar@th.com.br
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